Skip to content

O Círculo

Empowering Communities

Se fosse possível viajar de avião pelas nuvens de Vénus, veríamos relâmpagos e ouviríamos trovões, tal como acontece na atmosfera da Terra. Já se desconfiava de que fariam parte da paisagem atmosférica venusiana, mas os primeiros resultados obtidos pela sonda Venus Express, lançada pela Agência Espacial Europeia (ESA) há dois anos, acabam de confirmá-lo.

A novidade faz hoje parte de um pacote de oito artigos na revista Nature sobre a missão, escritos por uma vasta equipa, que incluiu astrofísicos portugueses. “Já existiam algumas indicações sobre os relâmpagos. A Venus Express acabou com todas as dúvidas: os relâmpagos estão confirmados”, diz David Luz, do Observatório Astronómico de Lisboa.

Mas o número de relâmpagos é metade do da Terra, refere Pedro Russo, que, na altura deste trabalho, estava no Instituto Max-Planck para a Investigação do Sistema Solar, na Alemanha. Mais do que o número, dizem os astrofísicos portugueses, os relâmpagos são importantes pelo papel que desempenham na química da atmosfera. As descargas eléctricas partem as moléculas, que depois originam outros compostos químicos.

Se fosse possível estar na superfície de Vénus (não é, porque seríamos esmagados por uma pressão atmosférica 92 vezes superior à da Terra e reduzidos a carvão por temperaturas superiores a 450 graus), nem daríamos pelos relâmpagos e os trovões. Só ocorrem na densa camada de nuvens que, entre 40 a 60 quilómetros de altitude, forra o planeta. Também não sentiríamos os ventos, mais fortes do que na Terra. A 60 quilómetros de altitude, atingem os 360 quilómetros por hora, mas no solo resumem-se a brisa.

Outra das novidades é a confirmação de um vórtice no pólo sul, uma enorme tempestade semelhante a um furacão. Só que tem um duplo centro, como se fossem dois furacões a rodar lado a lado. Já se sabia da existência de um destes vórtices no pólo norte de Vénus; a descoberta de um segundo permitirá compreender melhor a circulação atmosférica do planeta.

Água evaporou-se

Vénus também está a perder para o espaço a pouca água contida na sua atmosfera, outra das suas particularidades confirmada pela sonda. No início, terá tido oceanos como na Terra, mas os dois planetas, irmãos tanto em tamanho e densidade, seguiram caminhos distintos.

Com 98 por cento de dióxido de carbono na atmosfera, Vénus é assolado por um brutal efeito de estufa, manifestado por uma temperatura à superfície que é o dobro da de um forno doméstico. A água dos oceanos evaporou-se toda. Por que razão Vénus ficou assim, mesmo sem ter venusianos a seguir o mau exemplo dos humanos na Terra?

“Isso continua a ser um dos mistérios”, responde David Luz. “Mas a principal razão deve ser uma maior quantidade de dióxido de carbono na atmosfera.” Este gás com efeito de estufa pode ter contribuído para o aumento da temperatura e isso teria evaporado os oceanos, diz Pedro Russo, agora coordenador do Ano Internacional de Astronomia na União Astronómica Internacional. Ou, pelo contrário, o efeito de estufa pode ter aparecido devido à evaporação dos oceanos.

“A Terra, Marte e Vénus têm algumas semelhanças, mas em determinada altura evoluíram para cenários diferentes. Se estudarmos a evolução de Vénus e de Marte, compreenderemos melhor qual vai ser a evolução do nosso planeta”, sublinha Pedro Russo. “Se o efeito de estufa na Terra se tornar mais acentuado e houver uma evaporação acentuada dos oceanos, as coisas podem tornar-se sérias”, diz por sua vez David Luz. “O vapor de água junta-se ao dióxido de carbono e aumenta o efeito de estufa.”

A Venus Express tem ainda outra participação portuguesa. Bruno Sousa integra a equipa de controlo da sonda, no Centro de Operações Espaciais da ESA na Alemanha. À excepção de um instrumento científico, tudo funciona bem a bordo. “Já garantimos uma extensão da missão até Abril de 2009 e, na equipa, achamos que há condições para a estender por mais tempo.”

Fonte: Público

Advertisements

%d bloggers like this: