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O Círculo

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Certa vez, Hugo Gante e Carlos Santos, colegas no último ano do curso de Biologia da Faculdade de Ciências de Lisboa, foram pescar para o Trancão já despoluído, para ver que peixes já se tinham arriscado a regressar ao rio. O peixinho que apanharam, no final de 1998, parecia tão diferente de outros que o entregaram ao Museu de História Natural de Lisboa. Ficou lá estes anos todos num frasco com álcool, até que Hugo Gante voltou a cruzar-se com a sua pescaria e a olhá-la com olhos de biólogo. Afinal, tinham descoberto uma espécie nova.

Hugo Gante tem agora 29 anos e trabalha no Museu de História Natural de Lisboa com Maria Judite Alves, orientadora da sua tese de doutoramento. Quanto a Carlos Santos, de 30 anos, também está a doutorar-se, na Faculdade de Ciências de Lisboa. Só no ano passado Hugo Gante tirou o peixinho do esquecimento: “Fiz umas análises genéticas às amostras que tínhamos pescado, com linha e anzol, como fazem as populações locais, e confirmámos a sua diferença.”

Foram novamente para as ribeiras e rios afluentes do Tejo, à procura de mais peixes iguais. Só os encontraram em dois pontos, já perto de Lisboa: no Trancão e na bacia do rio Maior. Mas as análises genéticas e as comparações morfológicas com outros peixes, do género Chondrostoma, permitiram concluir que é mesmo uma espécie nova.

Chamaram-lhe Chondrostoma olisiponensis, inspirados no nome romano de Lisboa, Olisipo. Apresentaram-na num artigo, assinado por Hugo Gante, Carlos Santos e Judite Alves, na revista Zootaxa: é uma espécie pequena, cujos exemplares têm dez centímetros, esverdeada ao longo da linha lateral e com reflexos dourados e prateados.

“Nos pequenos peixes de rio, as fêmeas e os machos são iguais. Neste caso, os machos distinguem-se por terem barbatanas anais mais compridas”, explica Judite Alves. “É uma espécie muito rara, com uma distribuição super-localizada. Estamos preocupados com o seu futuro, porque os habitats estão sob pressão agrícola e urbanística à volta de Lisboa”, acrescenta. “Esta descoberta é simultaneamente uma surpresa e um motivo de preocupação, pela sua frágil situação”, frisa Gante. “É impressionante como um vertebrado pode passar despercebido tanto tempo, numa zona próxima da capital.”

Apenas é pescado por lazer, como aliás fez Carlos Santos em criança, e até o mantêm em casa. Se o pior acontecer, restará a dezena de exemplares nos frascos do museu.

Fonte: Público

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