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O Círculo

Empowering Communities

É a casa dos animais irrecuperáveis e de outros, os que ficam apenas de passagem, meses e anos, antes de voltarem a ser livres. O Centro de Recuperação de Animais Silvestres (CRAS) de Lisboa, uma zona vedada do parque florestal de Monsanto, assinala este mês os dez anos de vida. A história deste espaço faz-se 24 horas por dia, num ambiente sossegado, em que às vezes só os bichos se fazem ouvir.

Quando se passa pelo centro há um barulho de fundo constante de gralhas, águias, corujas e mochos, corvos, grifos ou abutres mas também, mais calados, alguns mamíferos como furões e coelhos. O barulho irrompe na tranquilidade deste lugar, uma espécie de hospital ao ar livre, com sala de cuidados intensivos, enfermaria, mesa de operações e placares informativos como os das salas de espera nos centros de saúde. Tudo feito à medida de animais silvestres, debilitados, que deixaram de poder viver sozinhos.

No ano passado, o CRAS recebeu cerca de 750 animais, um número que este ano já vai nos 800. A população aumenta, o espaço é pequeno e, dizem os responsáveis, cada um à sua maneira, o financiamento é escasso para tantas necessidades. O trabalho faz-se com “carolice”, persistência, apoios e sensibilização. As brigadas do ambiente da GNR e da PSP estão em sintonia, recolhem os animais feridos minutos depois de ser dado o alerta, e trazem-no para este e para outros centros de recuperação de animais selvagens espalhados pelo país.

Solicitude, mas não muita
As pessoas começam a interessar-se e trazem os bichos que encontram nas ruas ao centro por iniciativa própria. Vai-se cumprindo a missão do centro: ajudar na recuperação de animais silvestres feridos e debilitados, prestar cuidados médicos essenciais e prepará-los para o regresso à natureza.

Mas a intervenção humana é a menor possível, para que os animais não se habituem às pessoas. Quando acontece, tornam-se irrecuperáveis, ou como dizem os técnicos, “impregnados”: de tão habituados à solicitude dos homens nunca mais vão poder ser libertados, não sobreviveriam muito tempo sozinhos.

Na maioria das vezes nem é no centro que os animais se domesticam, vêm de casas onde as pessoas, de forma ilegal, têm um grifo no quintal como se fosse uma galinha, ou um corvo numa gaiola. Nuno Ventinhas, um dos sete membros da equipa do CRAS, lembra que há também quem vá por graça buscar as crias aos ninhos e depois não saiba o que fazer. Algumas chegam a centro ainda de olhos fechados. Ainda assim, se forem roubados ao ninho, mais vale que venham para o centro, acrescenta.

A entrada dos animais também tem causas naturais e faz-se por picos. Nuno Ventinhas descreve: nesta altura do ano chegam abutres, aves que estão a migrar para o norte de África, não encontram alimento e acabam por ser encontradas nos telhados ou mesmo na estrada. No domingo passado receberam uma chamada à 1h00 de Évora, o animal já está no centro em recuperação. “Temos uma fase no ano em que entram mais devido aos tiros, na época da caça. Temos outra fase que começa agora, das marés vivas, em que entram aves marinhas debilitadas que por causa do mar agressivo não se conseguem alimentar. Em Janeiro começam a chegar as crias de aves de rapina nocturnas e depois, em Maio, há o pico das aves de rapina diurnas”, continua o técnico.

“Um exemplo: nós andamos no nosso dia-a-dia, caímos, partimos uma perna, telefonamos para o 112, passados 10 minutos temos uma ambulância e vamos para o hospital. O animal não tem essa hipótese por isso a vinda dele para o centro depende da sorte de alguém o encontrar, o que às vezes pode levar duas semanas. Estes animais têm uma resistência muito grande, se não o número de entrada era menor, a maioria deles morria”, acrescenta.

Divisão hospitalar
No CRAS, a ajuda prestada aos animais é eficaz. Quando chegam, são avaliados por técnicos com formação em primeiros socorros ou veterinários. Se o animal está ferido ou tem uma situação clínica pouco estável fica isolado numa sala de cuidados intensivos, tão séria como o nome indica, onde não é aconselhável entrar ou fazer barulho. Uns são operados e recuperam, muitos outros acabam por morrer.

Os que chegam bem passam directamente para os parques de recuperação, grandes estruturas vedadas por rede imersas na vegetação, um habitat artificial onde treinam para ser livres. Um dos recentes projectos do centro, explica Nuno Ventinha, é um túnel de voo, um corredor onde as aves (90 por cento da população do CRAS) podem voar quase à vontade.

Quando ficam prontos são libertados, não se perde tempo. A equipa não lhes dá nome, e diz que não se criam laços. De preferência, são soltos no local onde foram encontrados. O momento da libertação, descreve quem já passou por ele, é uma sensação recompensadora. No ano passado, dos que entraram, cerca de 40 por cento puderam sair, um resultado que “para as pessoas pode ser pouco mas para quem vive a realidade é muito bom”, diz o técnico.

No CRAS para sempre
Fora os que não sobrevivem ao período de reabilitação, cerca de 20 por cento dos animais que dão entrada no CRAS de Lisboa são irrecuperáveis, nunca vão poder ser libertados. Ficam no centro até se achar melhor alternativa. Um dos mais antigos do projecto é um milhafre, lembra José Rento, membro da equipa. Mas até para os que ficam, o lugar não é propenso a criar raízes. As aves não fazem ninhos, não se reproduzem. A história da milhafre é disso exemplo: ainda tentou. Pôs ovos dois anos seguidos, fez o choco mas nunca nasceram crias, diz José. Na última tentativa ainda ficaram uns galhos junto de um pinheiro, mas os ovos ficaram lá de um ano para o outro.

Na cerca dos irrecuperáveis, as gralhas e os corvos falam uns com os outros, trocam “olás” com os amigos do centro e com as crianças que chegam em visitas escolares. O CRAS recebe anualmente cerca de 30 mil visitantes. Ainda assim, diz Cristina Gomes, chefe da Divisão de Educação e Sensibilização Ambiental da Câmara de Lisboa, responsável pela ofertas lúdicas e pedagógicas do centro, o decénio é um momento importante para repensar as estratégias de divulgação e apoio aos animais silvestres.

“Os donativos para serem ofertas a projectos específicos como este acontecem em géneros ou em valores não muito elevados. Estamos a estudar formas de apadrinhamento do centro, animais em especifico ou obras que sejam necessárias fazer”, diz a responsável. “É um espaço único na cidade que muitos não conhecem e depois ficam fascinados. Tem um poder enorme para motivar e interessar as pessoas”, acrescenta.

O CRAS tem um programa de voluntariado e recebe estagiários nas áreas da biologia e veterinária. Com tantas mãos, o trabalho não pára. Estão abertos todos os dias do ano. Quando não está ninguém no centro, os animais encontrados podem ser entregues à Guarda-Florestal de Monsanto.

Fonte: Público

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