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O Círculo

Empowering Communities

A adopção da língua, valores, costumes e direitos da sociedade de acolhimento por parte do imigrante não garante por si só a sua integração, uma vez que existe uma necessidade de adaptação mútua, afirmou uma especialista.

No sentido de promover um melhor conhecimento das experiências de outros países em matéria de políticas de integração de imigrantes, o Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural (ACIDI) organiza hoje, em Lisboa, um seminário, no qual será apresentada uma análise sobre os Modelos e Políticas de Integração de Imigrantes: os casos da Europa, Canadá e Austrália, elaborada pela investigadora Claire Healy, da National University of Ireland.

A autora da investigação, Claire Healy, disse que, embora o princípio da igualdade de direitos e obrigações sustente a maioria das políticas de integração e cidadania em países de imigração, no contexto europeu a integração é ainda encarada por vários Estados-membros como uma «assimilação», em que o imigrante abandona os seus valores e adopta os da sociedade de acolhimento.

Esta visão condiciona, de acordo com a investigadora irlandesa, a própria integração, uma vez que «só tem em conta os termos da sociedade de acolhimento».

Healy explicou que países como a França, Alemanha e Holanda introduziram, nos últimos cinco anos, cursos de língua e integração para os imigrantes nos quais se exige que estes cumpram certos requisitos mínimos relativos ao conhecimento da língua, valores e direitos vigentes para poderem entrar ou permanecer no país e com o objectivo de facilitar a sua integração.

Embora estes cursos possam, segundo Healy, representar um investimento a longo prazo para que os imigrantes consigam utilizar melhor as suas capacidades e contribuir melhor para a respectiva economia e sociedade, também representam uma tendência «contra a valorização da multiculturalidade», que surgiu após alguns incidentes registados nesses países, tais como os ataques terroristas em Londres ou os distúrbios nos subúrbios de Paris.

«A implementação deste tipo de medidas mudou por completo o verdadeiro conceito da integração para algo que é forçado, fazendo com que as pessoas vejam apenas a necessidade de adaptação por parte do imigrante, em vez de encarar a integração como uma necessidade de adaptação mútua», afirmou a investigadora.

«O conhecimento da língua e dos direitos e valores que regem as sociedades europeias são fundamentais para a integração», afirmou, lembrando, no entanto, que estas medidas «são só um elemento dentro de um processo complexo, que não podem ser forçadas ou vistas por si só como um garante para a integração».

«Estas medidas são um investimento e uma oportunidade perdida se a própria sociedade não mudar a sua atitude face aos imigrantes e caso não seja capaz de reconhecer o seu contributo económico, social e cultural», sustentou, lembrando que Portugal e Irlanda «têm o potencial de agir agora para garantir uma melhor integração dos imigrantes e aprender dos erros cometidos na política de imigração britânica, francesa ou holandesa».

Questionada sobre se a actual política de imigração comunitária – sobretudo focada no controlo das fronteiras externas da UE e na luta contra a imigração ilegal – constitui uma resposta adequada aos crescentes fluxos migratórios e a necessidade de garantir a integração social dos imigrantes, Claire Healy disse ser fundamental que a Europa «deixe de encarar a imigração e a integração como sendo duas coisas distintas».

«A UE tem de deixar de trabalhar separadamente nestas áreas porque isto bloqueia todos os esforços que se fazem a nível da integração», afirmou a investigadora, sublinhando a necessidade de «desenvolver políticas que vinculem a imigração com políticas de desenvolvimento e integração».

Healy lamentou que numa era de maior integração e cooperação política na Europa ainda não exista «uma cooperação eficaz a nível europeu em relação à imigração» e que as políticas nacionais nesta matéria «continuem a ser tratadas em isolamento».

Sublinhou que cabe à presidência portuguesa da UE «apelar para uma maior cooperação e solidariedade a nível europeu, para que todos os Estados-membros assumam as suas responsabilidades perante este fenómeno».

«É importante que países como Portugal e Espanha estejam na linha da frente em matéria de imigração para que se crie uma visão comum sobre este fenómeno e para que sejamos capazes de responder eficazmente a crise humanitária que se vive actualmente nas águas do Mediterrâneo e Atlântico», disse Healy.

Lusa / SOL

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