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O Círculo

Empowering Communities

O afunilamento do mercado de trabalho, com a economia deprimida e a administração pública a reduzir contratações, está a empurrar cada vez mais jovens para o desemprego ou para o trabalho ocasional. As escassas oportunidades de emprego – para um segmento em que a taxa de desemprego ronda os 18% – , surgem em regime de trabalho temporário, com contratos renováveis de três meses. Muito em particular, no sector dos call centers, onde mais têm crescido as ofertas de trabalho, empregando já cerca de 50 mil pessoas. Porém, apesar de as licenciaturas serem comuns nos centros de atendimento de chamadas, os salários são baixos e incertos. É a chamada “geração dos 500 euros”.

Helena Cardoso, 26 anos, sabe bem o que é viver de telefone e micro ao ouvido, com contrato precário. Licenciada em Comunicação Social e confrontada com a a falta de oportunidades de trabalho interessantes, acabou por ir parar a um call center, que prestava serviço para a TMN, embora o seu contrato de trabalho fosse com uma empresa de trabalho temporário. Apesar dos contratos serem renováveis por três meses, acabou por ficar nesse sistema cinco anos, sempre com vínculo precário. Algo que só é possível graças a um esquema de contorno da lei (que até aqui só permitia a renovação por dois anos), utilizado por algumas empresas de trabalho temporário: através de subsidiárias vão celebrando novos contratos de três meses com os trabalhadores, que nunca chegam a sair do mesmo sítio.

A “geração dos 500 euros” está longe de se circunscrever aos call centers e contact centers, ramificando-se por outros sectores de actividade, como o comércio, hotelaria e restauração, mas raramente consegue escapar ao universo dos contratos a prazo (que abrangem 52% da mão-de-obra até aos 24 anos) e das agências de trabalho temporário que, aos poucos, vão dominando cada vez mais sectores de actividade.

A tendência liberalizadora do mercado é visível nas estatísticas do emprego. Os empregados abrangidos por contratos a termo e em regime de trabalho temporário já ronda os 22%, quando na Zona Euro é de 16%. Há, no entanto, quem aponte que a “rigidez” do legislação do trabalho em Portugal, nomeadamente no que diz respeito aos entraves ao despedimento, é a responsável pela crescente subcontratação de áreas de negócio a empresas de trabalho temporário.

Para as empresas, as vantagens são evidentes. Por um lado concentram-se na área de negócio principal, delegando outras áreas, como os serviços de atendimento, a empresas especializadas; por outro, reduzem os custos e as responsabilidades a longo prazo com pessoal. Porque, como observa Fernando Ambrioso, sindicalista do sector das telecomunicações, “qualquer semelhança entre as tabelas salariais de uma PT ou dos CTT com as praticadas pelas agências de trabalho temporário, para a mesma função, são pura coincidência”.

Mesmo assim, e em linha com uma tendência mundial, as empresas não param de procurar mais baixos custos. Por isso, um dos call centers do grupo PT está localizado em Cabo Verde, explicando assim a razão de ser de sotaques variados que se vão escutando nos serviços de atendimento. De igual modo, Portugal também serve de base de call centers de multinacionais do sector automóvel para Espanha e França. E também com um certo sotaque.

Fonte: DN

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