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O Círculo

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Entrevista a Luisa Figueira, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria

Nos últimos cinco anos, a prescrição de antidepressivos aumentou 68%. O que explica isto?

Temos debatido esse assunto. Uma das razões é haver mais sensibilidade para o diagnósticos das depressões, nomeadamente pelos médicos de família e outros especialistas; em segundo lugar os antidepressivos são muito mais fáceis de prescrever, pois têm muito menos efeitos secundários, por isso os médicos que não são psiquiatras estão muito mais à vontade para os receitar. Por último, os antidepressivos também têm indicação nas áreas da ansiedade.

São indicados para várias doenças?

Sim, respondem a uma vasta gama de patologias. Isso tem sido crescente.

Com estes números, quase podemos dizer que não temos deprimidos em Portugal…

Não , isso não corresponde à verdade. Apesar do aumento da prescrição de fármacos, temos a noção de que cerca de 20% a 30% das depressões nunca chegam a ser diagnosticadas. Temos sim um melhor tratamento da depressão e da ansiedade.

Mas somos mais felizes?

Há estudos, nomeadamente na Hungria, que mostram que o aumento da prescrição de antidepressivos é acompanhado pela descida da taxa de suicídios. Como lhe digo, estou a referir concretamente o caso da Hungria. Em Portugal não temos indicadores que nos garantam isso.

Mas um estudo do Alto-Comissariado da Saúde, relativo ao nosso país, revela precisamente o contrário: o número de suicídios aumentou 6% de 2001 para 2005.

Os números não têm forçosamente de significar que a taxa de suicídios aumentou. O que provavelmente querem dizer é que houve uma melhoria dos registos relativos aos suicídios.

O registo da causa de morte melhorou?

Sim, muito. Estamos a registar bastante melhor os casos.

A crise económica também pode explicar o aumento do uso de antidepressivos?

Bem, na Grande Depressão, no final da década de 20 do século passado, houve um aumento de doenças psiquiátricas. Mas não acho que haja aqui um paralelo. Há actualmente uma crise, de facto, mas, em clínica, não se tem visto um aumento da morbilidade associada a essa crise.

Ao mesmo tempo assistimos a uma oferta e consumo de bens enorme. A frustração de não poder comprar pode conduzir à depressão?

Não, a frustração pode criar factores de stress. Sentir frustração por desejar bens de consumo e não ter poder de compra para os adquirir pode gerar um mal-estar emocional que não se traduz em depressão.

Como se expressa essa sensação?

Nos indivíduos mais jovens pode traduzir-se por alguma agressividade.

Fonte: DN

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