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O Círculo

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Quando, em Abril 2003, ficou concluída a leitura da totalidade do genoma humano, os cientistas tinham perante os seus olhos um gigantesco livro de instruções (com três mil milhões de “caracteres”) para a construção do corpo dos homens e das mulheres. Mas ainda estavam longe da meta: conseguir decifrar a língua em que esse livro está escrito para perceber exactamente como é que as diversas partes do corpo são fabricadas – e como, por vezes, as coisas correm mal, dando origem a doenças.

A visão convencional do ADN é que ele contém cerca de 30 mil genes cuja sequência serve para fabricar as proteínas, que são os tijolos de base das células vivas. O resto – 98 por cento do património genético – era considerado “lixo” desprovido de função biológica. Daí que os esforços dos geneticistas tenham ido, em geral, no sentido de identificar e estudar exclusivamente os genes que codificam proteínas, à procura das causas das doenças que assolam a humanidade.

Contudo, tudo indicava que o “lixo” do ADN continha outros elementos importantes para a construção do organismo – sem ir mais longe, elementos que regulavam a expressão dos próprios genes. Foi por isso que, logo a seguir à sequenciação do genoma, foi lançado um consórcio (ENCODE) com o objectivo de compilar pela primeira vez a lista de todos os elementos – não apenas os genes – que, dentro da gigantesca molécula de ADN, possuíssem algum tipo de função biológica.

Numa primeira fase, os 35 grupos de investigadores de 80 instituições espalhadas pelo mundo que integram o consórcio – liderado pelos National Institute of Health (NIH) norte-americanos -, decidiram olhar para apenas um por cento do ADN, escolhendo cuidadosamente as partes que iriam analisar mais a fundo, para testar estratégias que permitissem identificar outros elementos funcionais do genoma. O objectivo pode parecer modesto, mas não é: a prova disso é que o batalhão de cientistas envolvidos demorou quatro anos a completar o trabalho, que hoje culmina com a publicação de um grande artigo na revista “Nature” e mais 28 “artigos companheiros” na revista “Genome Research”.

Mais: as surpresas que o estudo desta pequena fracção do genoma já revelou deixam vislumbrar que, para além de algumas respostas, irão sobretudo surgir muitas novas perguntas, cuja resposta irá pôr em causa a visão convencional do ADN.

Para já, há “a descoberta de que a esmagadora maioria do ADN no genoma humano é transcrito para moléculas funcionais, chamadas ARN, e que estas transcrições apresentam grandes zonas de sobreposição em relação umas as outras”, explica um comunicado dos NIH. Ou seja, grandes zonas que repetem as mesmas sequências genéticas. “Os novos dados indicam que o genoma contém muito poucas sequências inutilizadas”, diz o mesmo documento. Porquê? Mistério. Mas o certo é que, de uma penada, morre assim o conceito de “lixo” no ADN.

“Tornou-se claro”, diz John Greally, do Einstein College of Medicine, num artigo de comentário na “Nature”, “que existe uma organização em grande escala do genoma”. O genoma não é apenas uma colecção de genes independentes, mas uma rede complexa, dentro da qual os genes são apenas uma categoria de actores.

Os novos resultados poderão ter profundas implicações para a maneira como se estuda a origem genética das doenças humanas. “Para perceber as causas das doenças, temos de perceber qual é a função desta maioria de não-genes”, diz Greally.

Fonte: Público

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