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O Círculo

Empowering Communities

Depois de cinco anos de trabalho, muitas versões do mesmo projecto arquitectónico, guerras entre os dois políticos mais importantes de Madrid, e uma baronesa, em protesto, acorrentada a uma árvore, a equipa de Álvaro Siza parece ter conseguido, por fim, um consenso para o novo eixo Prado-Recoletos, uma das mais importantes artérias da capital espanhola.

O arquitecto português tinha ganho um concurso público, em 2002, com a ideia de garantir mais espaço na avenida para os peões. Mas, no seu projecto, ainda constavam cinco faixas de rodagem e a alegada necessidade de cortar 900 árvores. Nem as associações ecologistas nem a baronesa Carmen Thyssen, vice-presidente da Fundação Thyssen (que gere o importante museu com o mesmo nome, no Passeio do Prado), concordaram com as propostas de Siza. Nas diferentes versões do projecto foram-se diminuindo as faixas para carros e o número de árvores a amputar. Os representantes do município disseram que se tratava apenas de 29 árvores e que dez já estavam doentes, acrescentando ainda que, quando pediram ideias e sugestões, os ecologistas e a baronesa tinham ficado calados.

O caso ganhou ainda mais mediatismo porque representava uma luta entre o alcalde da capital, Alberto Gallardón, e a presidente da comunidade autonómica de Madrid, Esperanza Aguirre. Os dois políticos, que pertencem ao mesmo partido (PP), acabam de ganhar as eleições de domingo com maioria absoluta, repetindo-se nos cargos que já ocupavam. Mas a batalha pelo protagonismo político em Madrid – e, no futuro, muito possivelmente pela liderança do partido – encontrou na remodelação do Passeio do Prado mais um motivo de braço-de-ferro. Gallardón defendia o projecto de Siza. Esperanza, que prometeu à baronesa, caso ganhasse as eleições, um novo museu para a sua enorme e valiosa colecção de arte, garantiu que nem uma árvore seria cortada.

Os representantes da equipa de Gallardón explicaram que a única proposta da baronesa, que surgiu quando o projecto já estava finalizado, consistia em construir um túnel, reservando o Passio do Prado exclusivamente para os peões. Juan Hernández de León, o arquitecto que assina o projecto com Álvaro Siza, respondeu com ironia: “É falso que se vá construir uma auto-estrada diante do museu. Mas também não precisamos de mais túneis em Madrid.” Referia-se a uma gigantesca obra, a M30. Trata-se de uma circular da cidade, com um túnel de vários quilómetros, que desvia o trânsito do centro, possibilitando assim a esperada redução de faixas no Passeio do Prado, mas cuja construção perturbou, até ao desespero, a qualidade de vida dos condutores madrilenos.

Percebendo que a sua (considerável) influência política não chegava, a baronesa decidiu, no ano passado, protestar diante do Museu Thyssen. Estava vestida com um fato branco (calças e casaco), os lábios bem pintados de vermelho, o cabelo loiro penteadíssimo, e rodeada de vários guarda-costas. Deixou que os fotógrafos disparassem as máquinas enquanto posava enrolada em correntes, chegando mesmo a prender-se a uma das árvores ameaçadas, dizendo: “Têm de me cortar primeiro um braço a mim, antes de cortarem estas árvores divinas.”

O novo e, espera-se, derradeiro projecto de Siza não prevê o corte de qualquer árvore, reduz as faixas de trânsito para três e aumenta o passeio diante do Museu Thyssen de dois metros e meio para dez. A Fundação Thyssen informou num comunicado que não conhecia ainda a nova proposta de Siza. Espera-se agora a reacção da baronesa.

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