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O Círculo

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Os glóbulos vermelhos do sangue não são todos iguais. Em função de diferentes moléculas que apresentam, como verdadeiras antenas, à sua superfície, pertencem a um de quatro grandes grupos: A, B, AB ou O.

Estas letras aparentemente inócuas poderão fazer a diferença entre a vida e a morte se, por alguma razão, viermos a precisar de uma transfusão sanguínea. Isto porque alguns destes grupos sanguíneos são incompatíveis com outros, e a mistura de sangues incompatíveis pode provocar, no organismo do receptor de uma transfusão, graves reacções imunitárias – e inclusivamente, conduzir à sua morte. (Existe também um outro grande sistema de tipologia sanguínea, chamado Rhesus e designado por um “+” ou um “-“, mas essa é outra história…).

Voltando às letras: há um tipo de glóbulos vermelhos que pode ser inoculado em qualquer pessoa sem provocar reacções potencialmente letais: o O. Por isso, o sangue de tipo O é o mais procurado quando não há sequer tempo para determinar o grupo sanguíneo de um doente que precisa urgentemente de uma boa dose de glóbulos vermelhos. E é também este o tipo de sangue que mais depressa se esgota quando acontecem desastres com muitos feridos a precisarem de levar transfusões.

Os glóbulos vermelhos dos diversos grupos distinguem-se uns dos outros através de pequenas moléculas de açúcar, chamadas “antigénios”, presentes nas extremidades das suas antenas de superfície. Os glóbulos vermelhos dos grupos A e B têm obviamente antigénios diferentes, enquanto os do grupo AB têm, como a sua designação indica, antigénios de ambos os tipos (A e B). Já os glóbulos vermelhos de tipo O são desprovidos de tais antigénios, o que faz com que as suas antenas moleculares de superfície sejam inertes, por assim dizer, não suscitando qualquer reacção indesejável por parte do organismo dos receptores da transfusão. Em Portugal, segundo dados do Instituto Português do Sangue, 46,5 por cento da população pertence ao grupo A; 7,7 por cento ao B; 3,4 por cento ao AB; e 42,3 por cento ao O.

Apagar os grupos sanguíneos

Procura-se há muito maneiras de transformar qualquer sangue em sangue de tipo O, eliminando os bocadinhos de açúcar que distinguem os glóbulos vermelhos dos diversos grupos. O princípio é simples e foi vislumbrado pelo norte-americano Jack Goldstein nos anos 80: bastaria encontrar uma forma de retirar os incómodos bocadinhos de açúcar das extremidades das antenas dos glóbulos vermelhos, de forma a transformá-los todos em inócuas células do grupo O. Mais precisamente, bastaria descobrir uma ou várias enzimas – as enzimas são autênticas “tesouras” moleculares, capazes de cortar outras moléculas em sítios muito específicos – que cortassem apenas as pontinhas reactivas, deixando intacto o resto das células sanguíneas.

A dada altura, Goldstein descobriu uma substância, nos grãos de café, capaz justamente de transformar as células do grupo B em células do grupo O. Mas o mesmo não aconteceu com as do grupo A. Para mais, o processo era pouco eficiente, sendo precisas grandes quantidades da enzima para o realizar, explicam Henrik Clausen, da Universidade de Copenhaga, e os seus colegas, na última edição on-line da revista Nature Biotechnology. Agora, mais de 25 anos depois, estes cientistas deram finalmente mais um grande passo na obtenção de “glóbulos vermelhos universais”, como eles próprios os designam no título do seu artigo.

O que Clausen os seus colegas de vários países (EUA, França, Suécia) fizeram foi procurar, entre cerca de 2500 bactérias e fungos, enzimas produzidas por esses microrganismos que conseguissem retirar os açúcares indesejáveis sem pôr em causa a integridade e a função dos glóbulos vermelhos. Por outro lado, era necessário que essas enzimas se revelassem eficazes mesmo em pequenas quantidades. E descobriram duas.

Os problemas ainda não estão todos resolvidos, dizem. Ainda será preciso testar não apenas a eficácia, mas sobretudo a inocuidade destes glóbulos vermelhos “todo-o-terreno” nos seres humanos. Mas, se se confirmarem as expectativas, as implicações serão imensas. “Ficamos à espera dos resultados dos ensaios clínicos com interesse”, dizem por seu lado Geoff Daniels, do Instituto de Ciências da Transfusão de Bristol (Reino Unido), e Stephen Withers, da Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá), num artigo que acompanha a publicação dos resultados na mesma revista.

Fonte: Público

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