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O Círculo

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A atribulada vida passional de Camilo Castelo Branco não se resumiu à intensa relação mantida com Ana Plácido ou aos inúmeros envolvimentos furtivos que alimentaram a imagem de sedutor inveterado. Durante dois anos, entre 1853 e 1855, o escritor, ainda em busca do reconhecimento literário, manteve uma arrebatada troca de correspondência amorosa com uma jovem poetisa portuense, cuja identidade permaneceu em segredo durante um século e meio.

As cartas, na posse do Instituto Nun’Álvares de Santo Tirso (vulgo Colégio das Caldinhas), fazem parte de “Os manuscritos Gertrudes”, um livro organizado pelo investigador Manuel Tavares Teles agora editado pela Guerra & Paz.

Além de revelar o nome de Gertrudes da Costa Lobo – tarefa só possível graças a uma pesquisa intensa nos periódicos e registos da época -, o livro desfaz ainda as dúvidas dos que atribuíam a Ana Plácido a autoria das cartas que serviram de base ao conhecido livro de Camilo “Memórias de Guilherme do Amaral”.

Gertrudes da Costa Lobo, que sempre fez questão de omitir a sua identidade, é aí exposta sob nome de Virgínia, expurgada da sua vertente feminista, decisão que se explica pelo conservadorismo de uma sociedade que não encarava de bom grado as tentativas de emancipação das mulheres.

“Naquele tempo, não se considerava adequado que uma mulher se expusesse através da escrita, atitude com a qual a Gertrudes se não conformou”, sustenta Tavares Teles.

Mais revelações em breve

O tom das 28 missivas e dois diários agora publicados – uma pequena parcela das que terão sido escritas – é, no mínimo, envolvente. A admiração de Gertrudes pela obra de Camilo não tardou em aprofundar-se e as cartas passaram a adquirir uma intimidade óbvia, com juras eternas de amor e certezas de felicidade plena.

Confrontado com tamanha paixão, o autor de “A queda de um anjo” reagiu de modo ambíguo. Nunca desencorajou totalmente os ímpetos de Gertrudes, mas também manteve uma cautelosa distância, para evitar danos maiores.

Certo é o carácter puramente platónico da relação, o que pressupõe que no único encontro mantido – no cemitério do Prado do Repouso, bem ao estilo ultra-romântico – Camilo ter-se-á sentido, talvez, desiludido com a sua pretensa amada, embora nunca o tenho admitido.

É igualmente provável que o escritor não tenha tido conhecimento tempestivo do falecimento de Gertrudes da Costa Lobo, quatro anos depois da troca de cartas, pois nessa altura encontrava-se em Lisboa, ao lado da amada Ana Plácido.

Mas o livro reúne também outros méritos, ao conferir novos elementos sobre um período da vida do autor ainda mal documentado. “Esta fase da vida dele é um quase deserto biográfico, porque conhecemos bem a infância e os anos de plena maturidade, mas faltam-nos elementos sobre os que antecederam o amplo reconhecimento da sua obra”, sintetiza o organizador da edição.

Para breve, Tavares Teles promete uma nova incursão pela biografia camiliana, com “revelações surpreendentes” sobre a vida em comum de Camilo e Ana Plácido.

Para Manuel Tavares Teles, a vida do profícuo escritor há muito que extravasou o campo literário “Camilo é fascinante, também, por se ter relacionado com quase todas as grandes figuras do seu tempo, dos políticos aos escritores e jornalistas. Na biografia de Camilo encontra-se, humanizada, a História do século XIX português”.

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